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Imagem de desenho de crianças aprendendo em um quadro branco.

Bilinguismo: saiba mais sobre essa tendência linguística

O bilinguismo é tópico de discussão entre pais e escolas e tem levantado algumas dúvidas sobre seus benefícios ou possíveis desvantagens. Você já deve ter ouvido que crianças têm aptidão natural em aprender uma nova língua. Ou conhece alguém que acredita ter passado da idade para estudar a língua inglesa.

Com os avanços tecnológicos e a globalização, as comunidades estreitaram ainda mais os seus laços, favorecendo o aumento e a necessidade de se adquirir habilidades comunicativas que permitam transmissão de informações entre sujeitos de nacionalidades e contextos diferentes. E a língua inglesa, por diversos motivos, tornou-se o meio pelo qual isso é feito.

O principal objetivo deste texto é desmistificar ideias relacionadas à educação bilíngue como um todo. Quer entender melhor o assunto e aprofundar os seus conhecimentos sobre o que é bilinguismo e ensino bilíngue? Então, aproveite essa leitura e saiba mais sobre o assunto com o Edify.

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O que é bilinguismo: definição e sua presença no Brasil

Bilinguismo é definido como o domínio de dois idiomas. Ou seja, a capacidade de se comunicar bem, tanto na língua materna como em uma segunda língua. E essa noção pode ser relativamente nova, mas o fenômeno não. Por sermos um país de grande diversidade cultural, temos povos de várias origens vivendo em nosso país.

Um bom exemplo são os nativos brasileiros, os indígenas, que possuem línguas diferentes e, após a colonização, também aprenderam a se comunicar em Português. Ou, descendentes de imigrantes, que muitas vezes são alfabetizados já no modelo bilíngue como forma de manutenção da sua cultura.

Um sujeito bilíngue, seguindo essa definição, é aquele que possui competências linguísticas suficientes para se comunicar em duas línguas. Mas e quanto à aquisição dessa capacidade? Existem, ainda, algumas dúvidas sobre o tópico, que iremos tratar mais adiante.

Existem três tipos desse conceito comunicativo, que são definidos de acordo com o contexto em que são inseridos. E para termos um entendimento integral sobre isso, é necessário saber quais são eles:

  • Composto: quando há a alfabetização simultânea de uma criança, na língua materna e na segunda língua;
  • Subordinado: é o caso de adultos que utilizam o aporte gramatical e teórico da primeira língua para aprender um segundo idioma.
  • Coordenado: o mais específico dos tipos, ocorre quando uma pessoa aprende um novo idioma e continua a desenvolver esse aprendizado. Como quando há mudança de país, gerando imersão nesse idioma secundário.

Somos um país bilíngue?

Para abordarmos essa questão, primeiramente é importante notar que somos não só um país bilíngue: somos multilíngues. Contudo, existe uma certa desconsideração dessa característica tão forte na nossa cultura. Segundo Maher (1997), no Brasil, há “cerca de 203 línguas, a saber: pelo menos 170 línguas indígenas, 30 línguas de imigrantes, 2 línguas de sinais (Língua Brasileira de Sinais – LIBRAS – e a língua dos Urubu-Kaapor) e evidentemente, a língua portuguesa”.

Portanto, a presença de indivíduos que possuem mais de um idioma em seu repertório é muito grande. Por outro lado, os efeitos da globalização e a democratização do acesso ao ensino de línguas fez com que a busca por aulas de inglês, por exemplo, se tornasse ainda maior. Já que, nesse quesito, ainda estamos em desvantagem em relação a outros países

E é seguindo essa ascensão que as escolas brasileiras começaram a se preparar para essa realidade. E para entendermos melhor sobre esse tema, é preciso conhecer um pouco mais sobre os aspectos intrínsecos do aprendizado e como ele se desdobra no dia a dia dos estudantes e das escolas.

A aquisição e o aprendizado da língua

Os termos aquisição e aprendizagem são muito presentes durante a discussão deste tópico. Isso porque o foco, em determinadas situações, é o resultado final. No entanto, é importante pensar em aquisição como o esforço inconsciente, mais implícito ou natural, enquanto a aprendizagem significa um empenho mais explícito e consciente.

De acordo com um estudo feito em Israel (FERMAN & KARNI, 2010), crianças usam mecanismos mais implícitos, ou seja, adquirem a língua mais naturalmente sem se desdobrar muito no processo. Enquanto os adultos usam mecanismos mais explícitos, o que envolve criar estratégias de estudo, além de refletir sobre o aprendizado.

Essa diferença é um dos fatores que levam a comunidade escolar e acadêmica a considerar qual seria a melhor idade ou momento para se aprender um novo idioma. E os estudiosos do assunto nos apresentam algumas hipóteses e considerações importantes sobre o tema. Uma delas é a Hipótese do Período Crítico, desenvolvida em 1959, pelos pesquisadores Penfield e Roberts.

Quanto tempo dura o tal período crítico?

Diferentes autores chegaram a diferentes conclusões. O consenso é que pode variar entre 10 meses e 18 anos. No entanto, um tópico com o qual os autores parecem concordar é que pode haver diferentes períodos críticos para diferentes aspectos de uma língua. A capacidade de distinguir certos fonemas, por exemplo, parece ter um período que termina antes de 1 ano de idade (KUHL et al., 2014).

O maior estudo sobre esse tema foi conduzido por Hartshorne, Tenenbaum e Pinker (2018), analisando cerca de 700 mil pessoas no mundo todo. E os resultados levaram os autores à conclusão que a nossa capacidade de aprender uma língua adicional começa a decair após os 17 anos de idade.

Contudo, os mesmos autores levantam a questão sobre esse declínio estar exclusivamente relacionado à maturação cerebral ou à perda de interesse e até mesmo à dificuldade de priorização do aprendizado de línguas, o que normalmente é acompanhado de uma mudança brusca na vida social.

O que nos leva ao questionamento: seria impossível se tornar bilíngue após o período crítico? Há muitas evidências que apoiam o fato de que podemos aprender idiomas em qualquer idade. Alguns autores, como Norrman e Bylund (1995), preferem usar a noção Montessoriana de “períodos sensíveis” em vez de “críticos”. Isso porque, ao final dos períodos críticos, seria possível observar um declínio acentuado na aquisição de uma função, o que não parece acontecer no caso dos períodos sensíveis.

E o que diz a Neurociência?

Alguns estudos de neuroimagiologia sugerem que a idade de aquisição talvez não seja um fator tão importante quanto o tempo de exposição. Quando indivíduos com alta proficiência bilíngue foram testados, foi possível demonstrar que a língua materna e a segunda língua ativam muitas das mesmas regiões no cérebro.

Isso pode sugerir que o nível final de proficiência pode ser bastante semelhante ao da língua materna, caso o tempo de imersão e a sua utilização seja prolongado.

A literatura científica ainda comenta sobre vantagens como ganhos de cognição, particularmente nas funções executivas que exercem o papel de atualizar a memória, mudar o foco entre tarefas e inibir as interferências, elementos fundamentais para o aprendizado.

Também há ganho de reserva cognitiva, o que garante a proteção por mais tempo do cérebro contra demência, por exemplo. Não podemos esquecer dos ganhos relacionados à criatividade, empatia, e compreensão de outras perspectivas e realidades. Sabe-se que a norma do planeta, assim como a do nosso país, é o multilinguismo.

Abutalebi e Perani (2012) afirmam que o cérebro humano não evoluiu para acomodar apenas uma língua, e que mais de 50% da população mundial utiliza dois idiomas ou mais para se comunicar. E é natural que essa população multilíngue utilize todo o seu reportório linguístico na hora da comunicação.

Logo, quando se adquire outro idioma na infância, é aceitável misturar ou trocar palavras sem nenhum problema. García e Wei (2014) explicam esses fenômenos — code-switching e translanguaging — e demonstram como isso é um aspecto normal do cérebro bilíngue e deve ser tratado como tal.

Existe alguma vantagem em aprender um segundo idioma na infância?

Já que os adultos precisam de mais esforço consciente para aprender e normalmente têm outras prioridades na vida, podemos concluir que começar na infância possui certos benefícios. No entanto, vale lembrar que tanto crianças quanto adultos têm total capacidade de aprendizado e podem alcançar a proficiência. No entanto, pessoas mais jovens contam com:

  • Mais exposição ao segundo idioma fora da sala de aula;
  • Menos interferência da sua língua materna, já que ambas se desenvolvem quase que simultaneamente;
  • Menos medo de praticar na aula;

Talvez as vantagens mais expressivas em se começar antes possam ser resumidas em um ditado em inglês, “The early bird catches the worm”. O que pode ser traduzido como, o pássaro que levanta cedo pega a minhoca. Isso quer dizer que quanto mais cedo, maior a chance de desfrutar dos benefícios do bilinguismo.

Biletramento e bilinguismo

O biletramento é o termo que se usa para a alfabetização simultânea e a aquisição dos aspectos técnicos das línguas acontece apenas uma vez. Posteriormente, as crianças se valem desses conhecimentos e transferem esse aporte teórico, interseccionando o aprendizado, segundo Bialystok et al. (2005):

“Há duas razões pelas quais a alfabetização pode ser diferente para crianças bilíngues e monolíngues. A primeira é que os bilíngues desenvolvem várias habilidades para alfabetização de maneira diferente dos monolíngues. A segunda é que os bilíngues podem ter a oportunidade de transferir as habilidades adquiridas para ler em um idioma e ler no outro. Em ambos os casos, a relação entre os sistemas de escrita nas duas línguas determina a semelhança nas habilidades cognitivas necessárias para a leitura e também pode determinar até que ponto o bilinguismo afeta a alfabetização.”

Portanto, as escolas podem se valer dessas habilidades ao se preparem para receber e implementar o bilinguismo cada vez mais cedo, a fim de gerar jornadas de aprendizagem que propiciem as melhores condições.

É importante ressaltar que o sistema bilíngue tem sua própria aplicação e definição. Ele pode acontecer por meio de uma escola internacional, uma escola ou programa bilíngue. Essa definição é importante para sabermos como abordar o ensino e suprir as necessidades de acordo com as expectativas das instituições escolares.

Por fim, não existe solução mágica, o processo requer esforço e leva tempo e dedicação. Por isso, é importante que se aproveite as oportunidades que a comunicação global oferece àqueles que a possuem. Investir nesse aspecto é investir no futuro. Com essa ferramenta, as vantagens são imensuráveis.

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Referências Bibliográficas

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ABUTALEBI, Jubin. PERANI, Daniela. Bilingualism. In: TOGA, Arthur W. (org.). Brain Mapping, Academic Press, 2015, Pages 469-473

BIALYSTOK, Ellen; MARTIN, Michelle M.; VISWANATHAN, Mythili. Bilingualism across the lifespan: The rise and fall of inhibitory control. International Journal of Bilingualism, v. 9, n. 1, p. 103-119, 2005.

FERMAN, Sara; KARNI, Avi. No childhood advantage in the acquisition of skill in using an artificial language rule. PloS one, v. 5, n. 10, p. e13648, 2010.

GARCÍA, Ofelia; WEI, Li. Language, bilingualism and education. In: Translanguaging: Language, bilingualism and education. Palgrave Pivot, London, 2014. p. 46-62.

HARTSHORNE, Joshua K.; TENENBAUM, Joshua B.; PINKER, Steven. A critical period for second language acquisition: Evidence from 2/3 million English speakers. Cognition, v. 177, p. 263-277, 2018.

KUHL, Patricia K.; REY, R. Ramírez.; Bosseler, Alexis. Infants’ brain responses to speech suggest analysis by synthesis. Proceedings of the National Academy of Sciences, v. 111, n. 31, p. 11238-11245, 2014.

LENNEBERG, Eric H. The biological foundations of language. Hospital Practice, v. 2, n. 12, p. 59-67, 1967.

MAHER, Tereza Machado. O dizer do sujeito bilíngüe: aportes da sociolingüística. Anais do Seminário: desafios e possibilidades na educação bilíngüe para surdos, p. 20-26, 1997.

MAYO, María del Pilar García et al. (Ed.). Age and the Acquisition of English as a Foreign Language. Clevedon, England: Multilingual Matters, 2003.

MEGALE, Antonieta Heyden. Bilíngue, eu? Representações de sujeitos bilíngues falantes de português e inglês. Revista X, v. 3, 2012.

NORRMAN, Gunnar; BYLUND, Emanuel. The irreversibility of sensitive period effects in language development: evidence from second language acquisition in international adoptees. Developmental science, v. 19, n. 3, p. 513-520, 2016.

SINGLETON, David. Second Languages in the Primary School: The Age Factor Dimension. Teanga: The Irish Yearbook of Applied Linguistics, v. 15, p. 155-66, 1995.

PENFIELD, Wilder; ROBERTS, Lamar. Speech and brain mechanisms. In: Speech and Brain Mechanisms. Princeton University Press, 2014.

TOGA, Arthur W. Brain mapping: An encyclopedic reference. Academic Press, 2015.

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