Nos últimos anos, falar sobre educação bilíngue deixou de ser falar apenas sobre ensino de inglês. Passou a ser falar sobre futuro, mobilidade, acesso e oportunidades.
Quando li o artigo “A moda dos colégios bilíngues”, da futurista Daniela Klaiman, publicado na Fast Company — uma profissional que acompanho e admiro —, minha cabeça ferveu com reflexões que considero importantes para essa conversa.
Há mais de dez anos, idealizar programas bilíngues e implementá-los com qualidade em escolas privadas no Brasil tem sido meu projeto profissional e também pessoal. Por isso, ao ler a provocação sobre o crescimento das escolas bilíngues no país, senti que valia ampliar esse debate.
Acredito que precisamos falar sobre a tendência dos colégios bilíngues no Brasil e, principalmente, sobre o que isso revela sobre educação, acesso e transformação social.
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O crescimento dos colégios bilíngues é tendência, não moda
O aumento da procura das famílias por escolas bilíngues — ou por soluções bilíngues dentro das escolas — é algo positivo, necessário e pouco relacionado à chamada “síndrome de vira-lata”, como retratado no artigo.
Falar inglês fluentemente continua sendo, comprovadamente, um diferencial importante para melhores empregos, salários, e oportunidades, seja no Brasil ou no exterior.
Do ponto de vista do país, esse investimento também é urgente. O Brasil segue há anos com baixa proficiência em inglês. Em 2025, ocupou a 75ª posição no Índice de Proficiência em Inglês da EF (EF EPI), permanecendo atrás de países vizinhos como Argentina (26a posição) e Uruguai (34a posição), mesmo com uma economia significativamente maior.
Nesse cenário, vejo com bons olhos o fato de a classe média brasileira reconhecer o inglês como uma poderosa ferramenta de acesso e ascensão social — e, pela primeira vez, conseguir oferecer essa oportunidade de forma mais ampla, e não apenas restrita à elite.
Educação bilíngue também é sobre ampliar horizontes
Nos últimos anos, vimos crescer também a valorização dos currículos internacionais, não apenas dos bilíngues.
Essa tendência, sim, vem carregada do desejo das famílias de oferecer aos seus filhos a possibilidade de cursar uma faculdade fora do país. Um currículo internacional facilitaria a entrada dos alunos em faculdades estrangeiras – sejam elas Ivy Leagues de mensalidades elevadas, como tratado no artigo, ou também quaisquer das mais de 2.500 faculdades americanas, 3.000 européias, ou 1.500 asiáticas, muitas das quais oferecem bolsas integrais para alunos estrangeiros.
Trabalhando com mais de 600 escolas em todo o Brasil, percebemos que esse interesse não está restrito às grandes instituições de elite. Ele aparece também em escolas menores, que veem na educação bilíngue uma forma de oferecer aos alunos a chance de explorar o mundo durante a faculdade — oportunidade que, por muito tempo, ficou restrita à elite brasileira pela falta de acesso à fluência em outras camadas da população. E isso importa.
Democratizar o acesso à fluência também significa democratizar o acesso ao mundo.
Dito isso, precisamos falar sobre os trade-offs reais quando uma escola decide substituir disciplinas em português por disciplinas em inglês, seja em um currículo bilíngue ou currículo internacional.
O risco de substituir conteúdo por inglês sem estratégia pedagógica
Aqui, vale honestidade intelectual: quando falamos sobre entregar educação bilíngue de excelência em escala, o bordão “tudo não terás” vem facilmente à mente.
Em um país continental como o Brasil, quando uma escola substitui disciplinas lecionadas em língua materna por disciplinas em segunda língua, existe um risco pedagógico real. Como pontuou Daniela Klaiman no artigo:
“Ensina-se matemática em inglês, mas pior matemática. Ensina-se ciências em inglês, mas com menos ciência.”
Isso acontece por dois grandes motivos.
O primeiro ponto sobre o pensar pedagógico e de aquisição linguística por trás da abordagem utilizada em sala de aula é muito importante. O equilíbrio entre a complexidade do conteúdo que precisa ser entregue em sala de aula, e do aprendizado de língua é essencial para garantir que o aluno consiga acompanhar as matérias, especialmente considerando que na sala de aula das escolas regulares temos turmas multiniveladas.
O segundo é estrutural: a formação docente necessária para sustentar essa entrega ainda é um enorme desafio.
Hoje, exigimos muitas competências dos professores: domínio pedagógico, capacidade de transmitir conteúdos complexos, comunicação com as famílias, manejo de questões socioemocionais, mediação de conflitos, inclusão de alunos neurodivergentes e muito mais.
Agora, ainda queremos que façam tudo isso em segunda língua.
Aqui preciso concordar com o artigo e dizer que a escolha de priorizar o inglês pode deixar sim, o aprendizado das demais disciplinas comprometido.
Adicionalmente, não preciso me aprofundar aqui na grande crise de professores que temos observado, no Brasil e no mundo. A solução para tudo isso? Valorização dos professores, foco das escolas em formação continuada, e na retenção desses profissionais.
Educação bilíngue não pode ser apenas uma decisão comercial ou de posicionamento de mercado. Ela precisa ser, acima de tudo, uma decisão pedagógica.
A forma certa de equilibrar exposição e aprendizado
No Edify, nossa abordagem foi aumentar ao máximo as horas de contato com a língua inglesa sem substituir os conteúdos curriculares centrais.
Mesmo em escolas com alto nível de maturidade em língua estrangeira, preferimos expandir vocabulário, oralidade e prática real por meio do desenvolvimento de competências que as escolas muitas vezes não conseguem integrar no currículo tradicional, como Green Skills, Liderança, Public Speaking, Letramento Midiático, Cidadania Global.
Assim, o programa bilíngue deixa de competir com o currículo da escola e passa a complementá-lo.
Não há perda de conteúdo, apenas ganho de repertório.
Esse mesmo cuidado aparece também no apoio aos professores, com formação continuada, acompanhamento pedagógico e iniciativas de bonificação e valorização profissional que fortalecem a entrega em sala de aula.
O verdadeiro objetivo: alunos falando inglês de verdade
No fim, precisamos lembrar que não oferecemos educação bilíngue em um ambiente de imersão natural.
Língua se aprende falando, ouvindo, lendo, praticando e vivendo.
Para garantir o nível de fluência necessário para que os estudantes se sintam confiantes na segunda língua, precisamos ampliar o contato com o idioma em diferentes formatos: sala de aula, plataformas digitais, prática extraclasse, filmes, música, leitura, videogames e experiências reais de uso. Esse é o inglês que permanece.
A conversa, portanto, talvez não devesse ser sobre a tendência dos colégios bilíngues ser ou não uma moda.
A pergunta mais importante talvez seja outra: Estamos formando alunos que realmente falam inglês de verdade — ou apenas vendendo essa promessa?
O diferencial não está em parecer bilíngue, está nos resultados.
— Marina Dalbem


